Imperadores da agulha e streaming


“Pense o rosa!” A exclamação de Kay Thompson, editora de moda do filme Um rosto com um anjo (Stanley Donen, 1957) ecoa pelas instalações da revista Qualidade. O cinema e o universo flutuante da moda alcançaram a sua aliança mais feliz banhados numa cor rosa cintilante. Quase setenta anos depois, os vasos de comunicação entre a moda e a tela experimentaram já há algum tempo um novo renascimento graças às plataformas e canais de televisão. Da tragédia à costura épica. A estreia da série O novo visual (Apple TV) e Balenciaga (Disney+) mais uma vez coloca a guilda dos designers na vanguarda.

Na primeira, Christian Dior e sua antagonista, Coco Chanel, e Cristóbal Balenciaga, o alquimista da alfaiataria, na segunda, como os novos heróis da ficção televisiva. Há apenas alguns anos seria impensável que a figura de um costureiro competisse pela proeminência com as façanhas de um gladiador ou com as fantasias medievais de um reino povoado por dragões.


O ator Gaspard Ulliel como Yves Saint Laurent no filme de Bertrand Bonello

Como precursora desse interesse enredo, aparece sempre a figura de Coco Chanel, revisitada em diferentes ocasiões na tela naquela atraente irmandade – para a ficção – de anticonformismo, glória e adversidade que atravessa a vida da inventora do o pequeno robe noire. Não é de estranhar que a figura ameaçadora de Mademoiselle Chanel se destaque entre os babados das saias dos estilistas, principalmente na série sobre Christian Dior como feroz adversário do criador do New Look. Diante de uma Coco Chanel sob suspeita e em declínio após a Segunda Guerra Mundial à espera de tempos melhores, a sombra da Dior cresce até a eclosão do New Look, nome com o qual o editor da Bazar do harpistaCarmel Snow, a coleção apresentada pelo costureiro francês em 1947 estabelecendo uma nova silhueta feminina.

Interpretado pelo ator Ben Mendelsohn, muito distante daquela figura de “padre gentil feito de maçapão rosa”, como Cecil Beaton o descreve com seu verbo malicioso em Os espelhos da modaa série cobre aqueles anos decisivos na vida do costureiro, Paris ocupada pelos nazistas, uma irmã da Resistência deportada para um campo de concentração e os primórdios com o costureiro Lucien Lelong até a eclosão do bombear New Look e sua entronização como monarca do renascimento da moda francesa.

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Juliette Binoche é Coco Chanel na série ‘The New Look’

AppleTV/EFE

Precursora do interesse da trama pela moda, Coco Chanel já foi revisitada em diversas ocasiões nas telas

As figuras de Dior e Balenciaga surgem como sobreviventes de uma Europa em ruínas e de uma França com o espartilho racionado onde a moda ilumina essa necessidade de viver novamente. Dois criadores que competem, um, pelo triunfo da exuberância, o outro, pela busca incansável pela perfeição. Uma morte prematura para a Dior e uma morte profissional para Balenciaga com a chegada do pronto para vestirencerrará uma era em que os criadores de moda se tornaram os imperadores dos alfinetes e agulhas.

Por um ângulo mais transgressor – o personagem colabora – a série sobre o estilista americano Halston (Netflix), aqui interpretado por Ewan McGregor, transforma o criador num herói da tragédia contemporânea, uma espécie de Rei Macbeth do glamour, do excesso, do sexo e das drogas, cujo final dramático parece escrito de antemão. Ascensão e queda de um visionário, vítima de uma indústria carnívora para a qual a criatividade deve estar subordinada aos negócios. Como o próprio Halston diz diante do seu declínio: “Não sou mais uma pessoa, sou uma marca”. Nesse espelho de autodestruição devemos situar a biografia do designer Yves Saint Laurent feita por Bertrand Bonello. são Lourenço (2014) mergulha, entre meados dos anos sessenta e setenta, nos infernos e paraísos do designer, no seu frenesim criativo, no alcoolismo, nos vícios, na paixão sadomasoquista pelo dândi Jacques de Bascher, atração fatal que partilha com Karl Lagerfeld.

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Alberto San Juan é Cristóbal Balenciaga na série Disney+

Arquivo

Dior e Balenciaga surgem como rivais e sobreviventes de uma Europa em ruínas que busca reviver com a moda

Naquele lado mais sombrio primeira fila e a crônica negra, também são encontradas O assassinato de Gianni Versace: história do crime americano (Netflix) ou A casa Gucci (Ridley Scott), duas ficções que mergulham naquele coquetel, aqui mortal, de luxo, sexo e poder que a alta costura perfura. Por um lado, a figura martirizada de Versace, um assassino em série para a conquista do sonho americano. Por sua vez, os moradores de A casa Gucciuma imagem um tanto estereotipada da Itália, que conspiram numa produção que bem poderia ser uma atualização daquelas séries dos anos oitenta, Dallas qualquer Dinastia.

Fora da ficção, o documentário de moda continua a mostrar alguns dos melhores ensaios desse palco, entre a oficina monástica e a opulência da passarela. O diretor francês Loïc Prigent e seu já exemplar Signé Chanel (2005) mergulhou na fortaleza Chanel para quebrar as entretelas de uma coleção sob o mandato do Kaiser Karl Lagerfeld. Um trabalho de pesquisa que serviu de referência para outros documentaristas.



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